Constelações familiares em diferentes contextos nacionais

SIMILARIDADES E DIFERENÇAS INTERNACIONAIS NA ESTRUTURA E NOS PROBLEMAS FAMILIARES

Escrito por Berthold Ulsamer

Resultados Preliminares do Método das Constelações Familiares

Apresentado pelo Dr. Berthold Ulsamer no 10º Congresso Mundial  de Terapia Familiar em Dusseldorf, Alemanha

O que são Constelações Familiares?

 

O terapeuta alemão Bert Hellinger desenvolveu esse novo tipo de terapia breve, que poderíamos descrever como uma árvore genealógica viva, englobando elementos das esculturas familiares e do psicodrama.

 

Em sua forma e em sua abordagem teórica contudo, esse trabalho é único e novo e tem procedimentos e efeitos surpreendentes.

 

Esse tipo de terapia foi desenvolvido em áreas de língua germânica e, Bert Hellinger originalmente limitou  suas áreas de atuação às regras e experiências que foram descobertas lá.

 

Esse tipo de terapia contém métodos que são apenas aplicáveis aos países de língua germânica? Será que Hellinger encontrou ordens que são tipicamente alemãs, ou elas são úteis em outros países?

 

A minha apresentação consiste em 03 partes:

 

1. Uma breve introdução ao trabalho prático envolvido e seu background .

2. Similaridades e diferenças nacionais com exemplos de vários países.

3. Considerações adicionais: existe uma unidade coletiva? Essa unidade coletiva tem efeito sobre as pessoas e a terra natal?

 

O método da Constelação Familiar em uso prático

 

O cliente que deseja fazer uma constelação terá os resultados mais plenos em um grupo. Primeiro é necessário para o cliente ter uma razão específica para colocar sua constelação.

 

O requisito é frequentemente uma pergunta a cerca de certos sentimentos conflitantes (depressão, sentimentos de culpa, etc ) ou a cerca de relações perturbadas na família.

 

Primeiro o cliente informa ao terapeuta fatos essenciais a cerca da sua família nas últimas 02 ou 03 gerações.

 

Perguntas importantes que precisam ser respondidas são:

 

Quem morreu cedo (antes de 25 anos)?

 

Ocorreram crimes cometidos por membros da família?

 

Por acaso algum membro da família carrega um pesado sentimento de culpa por alguma razão?

 

Os pais tiveram relações amorosas prévias, e elas tiveram consequências dignas de nota (ex: agressões, emigrações, nascimentos fora do casamento, adoção, etc)?

 

Então o cliente escolhe entre os membros do grupo, pessoas para representar seus pais, irmãos, a si mesmo e outros membros importantes da família.

 

Também são representados membros da família que já morreram.

 

Espontaneamente e centrado, o cliente posiciona cada representante, um em relação ao outro, na área de trabalho assim como sua imagem interna.

 

Os representantes em seus respectivos lugares, sentem as relações desse sistema e percebem os sentimentos das pessoas que elas representam. Esse efeito é ainda um fenômeno inexplicável.

 

Durante o trabalho prático com constelações, o terapeuta aprende a confiar nesse fenômeno mais e mais e a deixar-se levar por ele.

 

O efeito terapêutico das constelações advém de:

 

* Mostrar e posicionar a imagem interna  da família do cliente com todas as suas tensões e conflitos.
* trazer de volta pessoas importantes que foram esquecidas
* usar “frases de força” que trazem os conflitos à luz e os soluciona.
* Encontrar uma nova posição/ordem para as pessoas envolvidas. As  posições dos representantes serão diferentes no fim da constelação, gerando uma nova imagem interna de solução.

 

Quando Bert Hellinger desenvolveu as Constelações Familiares  ( nas regiões do mundo de fala germânica ) ele descobriu ordens básicas subjacentes.

 

De fato, apesar de haver exceções a todas as ordens, algumas se repetem com bastante regularidade.

 

Seis importantes ordens e princípios

 

1. Cada membro de uma família pertence a ela igualmente. Cada  família tem um vínculo interno muito forte, a despeito do quão desunida ela pareça quando olhamos de fora. T

odos os membros de uma família merecem atenção. Se alguém é expulso, ele será representado por um membro que nascer mais tarde, o qual irá impor a si mesmo um destino similar.

 

 

2. A morte precoce de um membro da família tem um forte efeito sobre todo o sistema. Uma inclinação para morrer aparece nos irmãos do morto, devido a suas conexões com ele.

Isto é expresso através da frase “ Eu seguirei você”. Se alguém carrega algo assim e mais tarde tem filhos, estes percebem isto e tentam aliviar os pais. Isto é expresso pela frase “Melhor eu do que você”. Esta inclinação para a morte se mostra através da doença e de comportamentos perigosos (esportes radicais, uso de drogas).

 

 

3. Crianças tomam sentimentos de outros membros da família. Isto ocorre de dois modos:  ou elas compartilham fortes sentimentos com outros membros da família (elas ajudam a carregar estes sentimentos por assim dizer) , ou elas tomam para si sentimentos não expressos.

Por exemplo, uma avó submissa é abusada fisicamente por seu marido. Ela tem então uma neta que por sua vez fica enraivecida com seu marido por nenhuma razão aparente. Na Constelação Familiar torna-se claro que a neta carrega a raiva de sua avó.

 

 

4. As crianças são leais aos seus pais (pai e mãe). As crianças quase sempre lidam com seu próprio destino de modo a impedir que elas mesmas tenham um destino melhor que o de seus pais. Devido a esta lealdade elas tendem a repetir o destino destes pais e seus infortúnios.

 

 

5. Há uma ordem na família que precisa ser respeitada. A pessoa que vem primeiro, seja um irmão ou um parceiro, toma o primeiro lugar. Os outros seguem esta ordem cronológica.

Estes lugares precisam ser respeitados sem julgamento ou  valorização,  apenas devem ser  percebidos como são.

 

 

6. Há uma organização espacial básica que é preferível. Há uma ordem básica na qual todos os membros de uma família se sentem bem, desde que se garanta que todas a conexões negativas tenham sido resolvidas.

 

Nesta ordem os pais ficam à frente de seus filhos com o pai ficando no primeiro lugar e a mãe seguindo no sentido horário a ele (quando olhamos de cima).

 

As crianças devem ficar olhando seus pais seguindo o sentido horário de acordo com sua ordem cronológica de nascimento, do mais velho para o mais novo.

 

 

Existem traços nacionais típicos nas constelações?

 

Este trabalho emergiu nos últimos 20 anos na Alemanha.

 

Uma pergunta que surge: se ele é aplicável a outros países também. Esta pergunta foi respondida de modo afirmativo por terapeutas que tem feito Constelações Familiares em países como Brasil, Eslováquia e França.

 

Eu tenho feito trabalhos na Suíça, Espanha, Itália e Argentina e também  alguns grupos no Japão e Taiwan.

 

Tem se tornado claro que as ordens e princípios descritos acima se aplicam também a famílias de outras nações e culturas. Quais são as similaridades e diferenças?

 

Eu só posso dizer que elas estão baseadas em experiências pessoais  e não em evidência estatística. Contudo, a experiência é informativa, porque ela mostra as famílias e nações sob uma nova perspectiva.

As consequências da guerra.

 

Uma grande similaridade existe entre países que estiveram em guerra nas últimas 2 gerações. O resultado da guerra é a morte de soldados jovens.

 

Pais perdem seus filhos, irmãs perdem seus irmãos e crianças nascem, porém nunca conhecerão seus pais porque eles morreram antes que elas nascessem.

 

Nas constelações alemãs, tem sido demonstrado o quão doloroso é a perda de um irmão para uma irmã.

 

É frequente que uma inclinação para morrer nasça daí. Os filhos destas irmãs sentem isto, tomam isto para si e eles próprios também desenvolvem esta inclinação para a morte.

 

Contudo, a mesma dor ocorre em outras nações, como me foi mostrado na constelação de uma psicoterapeuta  espanhola.

 

A despeito de anos de análise sobre a morte de seu pai, o qual havia morrido antes de seu nascimento na guerra civil espanhola, ela só conseguia imaginá-lo como um fantasma.

 

Contudo, a morte pode ter vários efeitos. Há tipos de morte que são experimentados coletivamente e de uma forma especialmente traumática.

 

Consequentemente estas mortes são reprimidas na consciência tanto quanto possível e tem um peso muito grande na família.

 

Usualmente as pessoas que tomam parte numa constelação chegam a ter calafrios  quando tais mortes são mencionadas. Na Alemanha estas são as mortes que ocorreram nos campos de concentração nazistas.

 

No Japão, são as mortes que ocorreram em decorrência das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.

 

Uma perda é especialmente má quando a família não está certa da ocorrência da morte.

 

Este é,  por exemplo, o caso do destino de vários homens na Argentina que desapareceram e foram sequestrados sob o poder da ditadura – os “desaparecidos”.  Mesmo hoje, após muitos anos, as famílias dos mortos vão regularmente a Buenos Aires para protestar.

 

 

Uma constelação na Alemanha me mostrou o quanto é difícil lidar com aqueles que desaparecem.

 

 

Nos anos 50, um homem cujo irmão estava desaparecido por 10 anos, teve a morte deste irmão declarada legalmente para que se pudesse fazer a partilha da herança.

 

 

Devido a isto o irmão sobrevivente sentiu uma culpa enorme – quase como se ele fosse um assassino.

 

 

Quando nós olhamos para o mundo de hoje para países como a Iugoslávia ou outros países do continente africano, só podemos especular acerca da extensão das tragédias e suas consequências para as gerações futuras.

Países não envolvidos em guerras nas gerações recentes.

 

O que dizer das constelações em países que tem se mantido longe das guerras? Eu passo agora a relatar minhas impressões obtidas num recente seminário de 6 dias com um grupo de pessoas da Suíça.

 

Os primeiros 2 dias foram muito leves. Isto é diferente das constelações na Alemanha, onde as mortes da II  Guerra Mundial aparecem com frequência – pais, irmãos e crianças que morreram lá.

 

Parecia que circunstâncias favoráveis tinham protegido os suíços de tais tragédias. A intensidade do seminário estava bem baixa.

 

No terceiro dia, aquele tipo de coisa que as famílias de classe média costumam suprimir veio com muita força à superfície.

 

Houve uma constelação na qual um pastor cometeu adultério com a mulher que iria se tornar a sogra de seu filho. A mulher deu a luz a uma criança (filha dela e do pastor)  mas ela foi considerada filha do marido desta mulher… Em várias famílias veio a luz casos de abuso.

 

Parecia que muitas famílias precisavam de pelo menos uma ovelha negra para carregar os problemas da família.

 

Aqueles que tomaram parte controlaram suas emoções a um elevado grau e usaram muita energia para fazê-lo.

 

Quando eles não puderam mais manter o controle, os sentimentos suprimidos vieram à tona, dramática e incontrolavelmente.

Outras culturas

Eu agora gostaria de entrar em detalhes sobre minha experiência com cerca de 20 constelações feitas com pessoas do Japão e de Taiwan.

 

As constelações foram em grande parte similares umas às outras – mais do que entre as constelações alemãs. Os representantes do pai e da mãe mantiveram uma certa distância entre si e algumas vezes ficavam de costas um para o outro.

 

Quando eram virados de modo a ficarem frente-a-frente se sentiram  estranhos um ao outro. Nenhum parecia realmente querer estar com o outro por amor. Muitos casamentos foram arranjados.

 

O resultado: desapontamento recíproco e frustração, dos quais no melhor dos casos gerou uma certa “camaradagem” entre os parceiros em meio a uma situação tão difícil.

 

Uma frase que uma pessoa sentiu ser capaz de trazer alívio foi: “ Você me frustrou e eu a você – nós estamos no mesmo barco.”

 

As mulheres estavam especialmente indispostas a assumirem responsabilidade por terem casado com seus parceiros, pelo menos de início. Elas se viam como vítimas.

 

A força para assumir a responsabilidade só veio quando foi incluída a representante da mãe ao lado de sua filha. Isto foi diferente do que foi observado nas constelações alemãs.

 

Ao mesmo tempo houveram dinâmicas de transferência de sentimentos de amor na família – quase sempre tendências eróticas entre a mãe e seu filho favorito ou o pai e sua filha favorita.

 

Nas constelações alemãs  sentimentos eróticos muito fortes entre os pais e suas crianças resultam da dinâmica na qual uma criança representa um primeiro amor ou noivo de um dos pais.

 

Em uma das constelações japonesas, a relação erótica entre o pai e a filha foi tão forte que eu estava certo de que o pai teve uma primeira mulher.

 

A filha (a cliente cujo sistema estava sendo constelado) não sabia nada a cerca da existência de tal mulher. Eu finalmente arrisquei um experimento e posicionei uma mulher para representar este primeiro amor do pai.

 

 

O pai começou a considerar aquilo e então concluiu “esta é minha mãe”.

 

 

Se fosse para generalizar minhas percepções então eu diria que as conexões eróticas profundas dessas crianças a seus pais acabam por impedí-la de ter relações realmente satisfatórias mais tarde na vida.

 

 

Ao invés disso  elas também, por sua vez, buscam uma criança para estabelecer uma relação que realmente preencha o coração delas. Esse padrão é revivido de uma geração para a outra.

 

Mesmo as outras crianças – devido à lealdade ao destino dos pais – raramente têm relações amorosas plenas.

 

 

Como nas constelações alemãs, chegou-se a uma ordem básica apropriada no final – os pais lado a lado e as crianças de frente para eles, da mais velha para a mais nova.

 

 

Contudo, tanto para os pais quanto para as crianças foi necessário deixar bastante espaço entre eles.

 

 

Eu presenciei uma fascinante constelação de uma mulher em Taiwan – que era sobre a morte precoce de sua irmã. A irmã morta ainda pertencia à família.

 

 

Até mesmo um lugar na mesa era sempre reservado para ela. De início a irmã morta foi vista como sendo perigosa e ameaçadora.

 

 

A irmã sobrevivente estava com medo dela muito mais do que numa situação similar observada em constelações alemãs.

 

Devido a esta experiência, eu suspeitei que a morte precoce tem o efeito “eu seguirei você” também nas outras culturas (apesar delas lidarem com a morte de maneira diferente do que fazemos).

 

Uma irmã ou irmão morre e os outros vivem. Mas os sentimentos de culpa dos sobreviventes não são aliviados pelos atos rituais.

 

Um terapeuta japonês que já tinha dado seus primeiros passos no trabalho de constelações familiares com seus compatriotas, disse-me que o trabalho tinha servido como uma espécie de escola para ensinar os homens japoneses a entrarem em contato com os seus sentimentos.

 

Eles reprimem completamente os seus próprios sentimentos. Contudo, como representantes acham fácil perceber e expressar sentimentos.

 

 

Agora eu gostaria de passar algumas experiências que meus colegas que trabalham com outras nacionalidades contaram-me.

 

Jacob Schineider trabalhou muitas vezes no Brasil – principalmente com terapeutas que são descendentes de imigrantes europeus. Vários temas vieram à luz em seu trabalho.

 

Um de tais temas é que as consequências da emigração e integração em uma nova terra desempenham uma grande tarefa.

 

 

Ele cita um exemplo de uma constelação com um padre cujo pai estava morrendo, mas que por alguma razão não podia ainda morrer.

 

 

Na constelação, foi mostrado que o pai já tinha aceitado sua morte iminente  mas tinha ainda um problema com seu filho.

 

 

Só quando o filho posicionou seu representante alinhado com os representantes de seu pai e de seu avô e garantiu a eles que honraria e manteria sua herança italiana  foi que o pai sentiu-se aliviado.

 

 

Logo após a constelação desse filho, o pai morreu em paz tendo o filho a seu lado.

 

 

Em muitas constelações o filho permanecia ao lado da mãe e a filha ao lado do pai. As crianças pareciam muito envolvidas no casamento dos pais e inclinadas a tornar-se parceiros afetivos substitutos.

 

Muitos brasileiros vivem próximos à morte sem que a dinâmica exata seja visível.

 

Em nenhuma das constelações houveram crianças prematuramente mortas na geração atual ou anterior – um fato que Schineider achou ímpar. Em quase todas as famílias contudo, haviam mortes por acidentes de tráfego.

 

Os membros da família não tinham muito conhecimento sobre eventos da história familiar, no que diferiam dos alemães.

 

 

A situação de brasileiros de classe social inferior e/ou ancestralidade africana ou indígena era muito diferente.

 

 

Nesses grupos sociais há uma enorme quantidade de incesto e estrutura familiares desoladas, muitos irmãos desconhecidos e pouca segurança social dada pelos pais.

 

 

Nestes casos parecia haver pouca chance de se obter uma ordem completa na família.

 

 

De acordo com Schineider era imperativo ver onde existia um lugar relativamente seguro para as crianças que as ajudasse a seguir um destino obrigatoriamente diferente do de seus pais e ao mesmo tempo reconciliá-las com seus pais.

 

Que relação tem as pessoas com seu próprio país e povo?

 

O trabalho com constelações revela que há muitas áreas bem definidas de conexão humana. Subjacente a isso, certas ordens e princípios atuam.

 

Um exemplo de ordem importante a respeito das relações amorosas é que parceiros prévios precisam ser reconhecidos  e que cada um tenha seu lugar numa ordem cronológica.

 

Então existe a família cuja ordem já foi mencionada. Há também princípios que atuam em organizações, tal como aquele que diz que pessoas que estão numa organização há mais tempo precisam ter seu tempo de casa respeitado.

 

 

Uma área desta conexão humana que está começando a se mostrar  tem a ver com nacionalidade e país de origem.

 

 

Existe algo coletivo que se refere a uma conexão com a terra natal? Que princípios funcionam aí?

 

 

Uma constelação levada a cabo por um colega e eu há poucos anos atrás ampliou largamente meus horizontes. Até aquela época, eu ficava aborrecido pela constante preocupação da mídia com o terceiro Reich.

 

Eu era da opinião de que não deveríamos nos preocupar com isso e, ao invés, olhar para o futuro.

 

Embora eu não fosse pessoalmente afetado por uma história familiar de nazismo, pois meus pais tinham desenvolvido uma aversão a esta ideologia, por suas crenças católicas.

 

 

Meu pai foi médico durante a guerra e tinha sobrevivido ileso.

 

 

Nessa constelação, um homem de 40 anos cujo avô foi um nazista entusiástico, colocou sua família. O homem  e também seu representante estavam excitados e atraídos pela força e poder da ideologia nazista.

 

 

De maneira a trazer a realidade criminosa do que aconteceu nos bastidores, nós acrescentamos alguns representantes para os perpetradores nazistas e também suas vítimas à constelação.

 

 

Contudo, o homem ainda achou difícil aceitar a realidade e queria permanecer cegamente atado às idéias sedutoras do nazismo.

 

 

Somente após um ano ele foi capaz de aceitar a realidade através de uma outra constelação similar.

 

 

Após essa constelação, eu subitamente senti que eu também estava no mesmo barco que ele e precisava olhar para este passado.

 

 

Desde então, minhas impressões sobre os alemães e suas relações com o terceiro Reich mudaram. Parece-me agora que um povo inteiro tornou-se culpado da destruição inclemente de judeus e outros grupos raciais.

 

 

Cada pessoa, quase todos, de uma forma ou de outra carrega uma parte dessa culpa e deste modo colabora com ela.

 

 

Como Bayohr provou em sua tese de doutorado publicada recentemente, a propriedade total de pelo menos 30000 casas pertencentes a judeus assassinados ou expulsos foi leiloada, somente em Hamburgo.

 

 

Ele calculou um total de 100000 compradores e estimou que devem ter havido milhões de compradores similiares em todo o país. Isto significa que milhões de alemães obtiveram vantagem às custas da morte dos judeus.

 

 

Os filhos e netos da geração da guerra vivem, parece-me, uma das duas alternativas. Ou não aceitam seus pais que estão carregados de  culpa, e assim permanecem sem força ou raízes

 

 

(neste caso, quando estão fora de seu país, sentem-se envergonhados de serem alemães) ou eles colocam botas de combate, raspam a cabeça e espancam estrangeiros ou outros grupos raciais

 

 

(e desse modo aceitam seus pais, e têm a mesma força, mas também a mesma culpa).

 

 

Quando observo outras nações européias, sua unidade e laços familiares, parecem-me mais fortes do que na Alemanha. As raízes parecem mais intactas.

 

 

O único país cuja população parece ter ainda menos raízes é o EUA. Isto pode ser percebido pelas constantes mudanças  de carreira, vida privada e localização de moradia.

 

 

A terra foi ganha através da destruição ou expulsão da população nativa, os índios americanos. Eu suspeito que um mecanismo similar ao que atua na Alemanha esteja em funcionamento.

 

 

A culpa dos ancestrais sobrecarrega a relação que suas crianças ou descendentes posteriores tem com eles.

 

Dissolvendo as conexões com um crime.

 

As constelações fazem com que um  passo significativo e gerador de cura em um outro nível seja possível.

 

 

Se o pai ou a mãe cometeu um crime sério, especialmente assassinato, há duas coisas a serem feitas consecutivamente na constelação.

 

 

Num primeiro passo, o pai ou a mãe deve ser reconhecido em seu papel de ter dado a vida. A criança então agradece aos pais pela vida que ela recebeu.

 

 

A seguir ela deve deixar a culpa ou responsabilidade pessoal dos pais com eles. Se alguém se torna um assassino, ele tem de deixar a família na constelação.

 

 

Então todos se sentem aliviados – não apenas o resto da família, mas o agressor também.

 

 

Se o agressor não sai, então as crianças que nascerem depois  tomarão a culpa e se tornarão, ou agressores ou vítimas nas gerações futuras.

 

 

O passo que leva a um novo nível é possível através da constelação.

 

 

Uma criança reconhece o pai ou a mãe como aquele de quem recebeu a vida e ao mesmo tempo deixa o agressor manter sua culpa e responsabilidade por suas ações.

 

 

Então a criança permanece intacta com suas raízes, sem tomar parte na culpa que não é sua. Parece-me que este passo tem de ser feito por cada um, individualmente.

O que é “terra natal”?

 

Um pequeno episódio que aconteceu em Buenos Aires esclareceu a conexão que as pessoas tem com sua terra natal.

 

 

 

Uma mulher argentina de 60 anos, cujos pais alemães emigraram para a Argentina antes dela nascer, contou-me a seguinte história.

 

 

 

Ela estava assistindo ao jogo entre Alemanha e Argentina pela copa do mundo de futebol.

 

 

 

Quando a Alemanha fez seu primeiro gol, ela espontaneamente caiu no choro – e foi recebida com expressão de estranheza por seus amigos.

 

 

Durante as constelações, o tema “terra natal” aparece no “pano de fundo” quando esta terra natal foi perdida.

 

 

Para clientes, cuja família foi expulsa de um país ou emigrou, é possível posicionar um representante  para  a terra natal, mesmo quando os pais são de diferentes nacionalidades.

 

 

O representante percebe sentimentos claros em seu papel de terra natal – usualmente sentimentos de paz e força.

 

 

A pessoa cuja terra natal é representada,  sente também uma forte relação com a mesma.

 

 

Usualmente posicionar uma terra natal trás um sentimento de força e alívio, como acontece, por exemplo, com alemães que tiveram que refugiar-se na Prússia Oriental, após a II guerra mundial.

 

 

Podemos sentir essa forte conexão com a terra ancestral, a qual não se dissolve, mesmo quando se deixa essa terra.

 

 

O efeito desta perda é similar ao efeito de perder uma pessoa da família.

 

 

Se essa perda  reprimida, é como uma ferida interna que permanece aberta, nos tornando fracos.

 

 

A ferida só pode se curar quando permitimos que a dor tenha um lugar. À terra natal é dado um lugar na constelação, onde ela possa ser reconhecida e apreciada.

 

 

 

Uma situação especialmente difícil,  ocorre com filhos e netos de imigrantes.

 

 

 

Alguns rejeitam a terra natal de seus pais – eles querem virar as costas para a velha terra natal e ficar de frente para a nova.

 

 

Porém, com isso, perdem uma parte importante de suas raízes e força.

 

A frase que é apropriada e tem um bom efeito aqui, pode ser  por exemplo: “eu reconheço você como a terra natal de meus pais e lhe dou um lugar em meu coração”.

 

 

A criança então, ganha força através do reconhecimento de suas raízes.

 

 

O tema terra natal se torna muito significativo quando trabalhamos com refugiados ou estrangeiros que trabalham na Alemanha, cujas crianças querem se integrar à sociedade alemã.

 

 

O diretor de uma penitenciária para menores,  contou-me a cerca de um grupo de jovens curdos presos que repetidamente, irrompiam em situações de violência abrupta e incontrolável.

 

 

Os pais, ao contrário, viviam em paz e bem adaptados na Alemanha.

 

 

 

Eu conduzi uma constelação nessa prisão, com um jovem que havia sido preso por estupro.

 

 

Seus pais tinham vindo da Iugoslávia, e eu decidi posicionar representantes para a Iugoslávia e Alemanha. O jovem não deu nenhuma atenção para a terra natal de seus pais.

 

 

Já o representante da Iugoslávia disse que ele sentia que a chave para a solução estava nele – a terra natal.

 

 

Um grande campo de pesquisa está aberto nesse contexto.

 

 

Uma constelação familiar conduzida por Bert Hellinger, com um judeu alemão, em Frankfurt, fevereiro de 1998, trouxe à luz esse tópico.

 

 

No começo do terceiro Raich, seus pais mudaram-se para Israel (que ainda era Palestina nesse tempo).

 

 

 

O filho nasceu e viveu lá até os 12 anos. Após isto, viveu na Alemanha e considerava-se um alemão.

 

 

Na constelação foram escolhidos representantes para Israel e Alemanha, e esses foram posicionados. Israel sentiu-se não reconhecido e não visto.

 

 

Um passo importante até a solução para os pais e o filho veio quando Israel foi trazido e reconhecido.

 

 

Contudo, o filho judeu sentiu-se desconfortável ao lado de seus pais, alguma coisa ainda parecia estar faltando, ele se sentia como se não tivesse terra natal.

 

 

Espontaneamente, Hellinger posicionou uma família que estava presente no curso como representantes dos palestinos que foram expulsos de Israel.

 

 

Ele os posicionou de frente para Israel, e deixou o cliente mudar o lugar de seus representantes, e este se posicionou ao lado dos palestinos expulsos.

 

 

Aí, ao lado dos expulsos, sentiu-se pertinente e pôde relaxar.

 

 

A expulsão é sempre uma injustiça contra aqueles que são expulsos.

 

 

 

Os que chegam depois e que tomam a terra nessas condições,  aproveitam-se desta injustiça.

 

 

O desejo de compensar e expiar aparece então nos filhos e netos dos agressores.

 

 

Nessa constelação, a necessidade de compensar mostrou-se no fato do filho judeu não aceitar Israel como sua terra, mas  ao contrário tomar para si os sentimentos das vítimas de não possuir uma terra.

 

O que mais nos conecta?

 

Simplesmente ser humano nos conecta a todos. A partir desse simples fato, derivam várias ordens e princípios básicos.

 

 

Usualmente tais ordens tornam-se claras em uma constelação quando uma pessoa torna-se um assassino.

 

 

Neste caso, tudo o mais que se refira à família ou nação, não desempenha nenhum papel.

 

 

A culpa permanece forte do mesmo jeito.

 

 

Ser humano é tudo que é necessário para estabelecer tal conexão. Mesmo para casais, a nacionalidade não tem nenhum valor em relação à conexão criada entre homens e mulheres.

 

 

Ser apenas humano já fornece uma conexão suficiente.

 

 

O que nos conecta? Haverá uma conexão entre todas as coisas vivas? Que ordens funcionam aí?  Poderão tais ordens serem reconhecidas através das constelações?

 

 

Quando plantas e animais são destruídos sem consideração ou motivo, ou exterminados por lucro, então falta a atenção necessária,  e a culpa é o resultado.

 

 

Será que nossos filhos, netos ou bisnetos estão tomando essa culpa? E de que modo? (será que poderíamos encontrar aí as causas para alergias que ocorrem mais e mais frequentemente?)

 

 

Até este momento, as ordens acima mencionadas estão ainda ocultas e permanecem por descobrir.

 

 

Mas talvez novas portas se abrirão aqui também, e seremos capazes de ir mais fundo nas profundezas daquilo que pode se mostrar a nós através das constelações.

 

 

Traduzido do inglês do texto original extraído do site do Dr Berthold Ulsamer, com permissão do autor.

 

Tradutor: Décio Fábio de Oliveira Júnior

 

Caso esse texto lhe seja útil de alguma forma e você queira utilizá-lo, para nós é uma honra servi-lo. Só lhe pedimos, por gentileza, que cite a fonte.

Fonte:  http://constelacaofamiliar.net.br/constelacoes-familiares-em-diferentes-contextos-nacionais/