Vontade e Destino

Vontade e Destino

Aspectos Polêmicos das Constelações Familiares

Jakob Robert Schneider

Abordarei a seguir, de uma perspectiva pessoal, alguns aspectos do trabalho com constelações familiares que podem ser socialmente desafiadores. Deixo ao leitor discernir o que nisso é realmente novo e leva a novos modelos da ajuda, e o que apenas provoca os espectadores, embora já goze, de longa data, de aceitação geral.

A constelação familiar

Para o nosso entendimento de processos psíquicos, a vivência de constelações é de fato desafiante. Até mesmo consteladores experientes se surpreendem sempre com o que nelas observam e experimentam. Como é possível que os representantes se sintam, falem e apresentem sintomas como os membros da família, embora não os conheçam e disponham de pouca ou nenhuma informação sobre eles? Para esse fenômeno ainda não temos explicação, muito menos uma explicação científica. Mas nos espantamos, descrevemos os processos e procuramos, às vezes, imagens ou modelos que os façam aparecer como compreensíveis e comunicáveis, sem postular explicações precipitadas.

Talvez a explicação mais simples seria esta: o cliente exterioriza sua imagem interna, e a posição dos representantes reproduz uma certa estrutura de relacionamento que está arquivada em nosso aparelho de percepção, com sua respectiva dinâmica. Mas como se explica que os representantes sintam coisas tão diversas em constelações de configurações semelhantes ou mesmo idênticas? Por que razão surgem nas constelações processos que tocam emocionalmente o cliente e fazem sentido para ele, mesmo quando o terapeuta escolhe e coloca os representantes, ou quando se coloca apenas uma pessoa – para não falar das chamadas “constelações invisíveis” -?

Uma teoria bem aceita entre os círculos de consteladores é a de Ruppert Sheldrake e seus “campos morfogenéticos”. Entretanto, mesmo ela, só nos fornece, até o momento uma explicação de caráter mais metafórico. Mas a falta de uma explicação científica para um fenômeno observável não prova a inexistência desse fenômeno. As observações de uma “participação psíquica” para além das informações comunicadas são tão numerosas e tão independentes da experimentação dos consteladores individuais que também pode ser útil a observação atenta de pessoas externas à “cena”.

Por exemplo, um representante coloca de repente as mãos nos ouvidos e diz: “Não estou escutando nada” e o cliente que colocou as pessoas diz, estupefato: “Meu irmão, quando era pequeno, ficou soterrado na guerra e desde então ficou surdo”. O que acontece num caso como este?

Outro exemplo: O representante do irmão de uma cliente é introduzido na constelação dela, e a representante da cliente exclama: “Não tenho mais o antebraço”, e a cliente exclama, espantada: “Meu irmão teve de amputar o antebraço aos vinte anos depois de um acidente”. O que explica este caso?

Mais um exemplo: Numa constelação, o representante do avô da cliente leva ambos os braços ao rosto. Perguntado sobre o que acontece, responde: “Algo me atinge os olhos e me arranca a cabeça”. Com efeito, esse avô, quando mostrava à sua tropa como desarmar uma granada, a fizera explodir por descuido e ela lhe arrancou a cabeça. E não foi dada informação prévia sobre esse fato.

Tais exemplos poderiam prosseguir indefinidamente. Naturalmente, tais observações dramáticas não constituem a regra nas constelações, porém são suficientemente freqüentes para gerar confiança no que se manifesta nelas.

Um professor que veio participar de um grupo com ceticismo, escreveu posteriormente numa carta: “… Embora me pareça haver muito de verdade na forma de ver o mundo como uma união de almas, na necessidade de intervir reconciliando e de proporcionar a cada criatura seu lugar condigno, parece-me um mistério que pessoas estranhas fiquem disponíveis e caiam em bloco sob o feitiço de pessoas inteiramente desconhecidas, comportando-se como elas. Minha própria constelação atestou isso, na medida em que os representantes agiram de um modo incrivelmente “autêntico”, inclusive em alguns detalhes que não puderam perceber de nossa conversa preliminar, por exemplo, a reação de minha filha…” Todos os consteladores conhecem declarações e surpreendentes concordâncias como esta, mas essas experiências não constituem provas. Seria preciso sermos cegos se pretendêssemos simplesmente ignorar esses fenômenos que questionam nosso entendimento atual de processos de informação.

Explicar os fenômenos das constelações como frutos de sugestão pelo constelador ou como uma espécie de mágica de grupo ou mesmo como charlatanismo seria igualmente precário. Presume-se que, dentro de prazos previsíveis, os cientistas irão examinar em que medida o recurso à constelação será válido para a pesquisa socio-psicológica e para os processos terapêuticos, e irão desenvolver novas teorias, talvez fundamentadas, sobre essa difusão de informação em contextos anímicos e comunicativos. Também em muitos domínios das ciências naturais a teoria freqüentemente se segue à observação. A falta de uma teoria não significa ainda, que estamos nos movimentando em áreas esotéricas. Além do mais, muitas teorias até aqui não confirmadas da moderna física, por exemplo, a teoria dos universos paralelos, fazem um efeito bem mais espetacular e “esotérico” do que o que observamos nas constelações.

A alma – o “campo dotado de saber”

As constelações familiares se referem de uma nova maneira àquilo que chamamos de “alma”. Podemos denominar assim a força invisível que animando (ou pelo menos no mundo animado) congrega partes num todo de uma tal maneira que o todo é mais do que a soma das partes e de suas funções dentro dele. A alma não se identifica com nossa consciência, pois inclui o inconsciente. E não se identifica com os processos fisiológicos e físicos em nosso corpo e em nosso cérebro, embora esteja inseparavelmente unida a eles. Não se identifica tampouco com nossos sentimentos, embora o sentir seja o modo de expressão por onde se experimenta a alma.

Ela é antes como o espaço ou o campo que une, ultrapassando espaço e tempo, tudo o que constitui uma pessoa, criando uma identidade. A abordagem típica da ciência natural atual, que busca o que “não difere”, a saber, as partes e partículas e suas mútuas conexões, exclui por seu próprio método a possibilidade de descobrir uma alma. Porém nossa experiência quotidiana se dirige ao que é “mais do que”. Não há conversa, nem arte, nem política, nem vida de relacionamento sem participação da alma. Como a experiência psíquica não pode ser reduzida ao que material e quantificável, a língua desenvolveu “palavras da alma” como liberdade, paciência, espírito, coragem, amor, etc. O que entendemos por “amor” não pode ser adequadamente entendido a partir de genes ou de funções do cérebro.

Sabemos que para falar dos domínios da alma dependemos de imagens, metáforas, imprecisões, vivências, experiências, intuições perceptivas, bem como da função anímica da avaliação sensitiva e de coisas semelhantes. Por mais que as ciências da natureza nos ajudem com seus conhecimentos e nos obriguem, por exemplo, a repensar nossa liberdade de decisão, a ocupação com a alma, que ultrapassa o âmbito da experiência da vida, pertence mais às ciências do espírito ou à psicologia como ciência do espírito. O trabalho com as constelações familiares se apresenta no concerto da teoria e da prática psicológica modernas de um modo amplo e desafiador, descortinando a alma redescoberta e suas leis.

Da mesma forma como em nossa alma pessoal somos maiores do que aquilo que percebemos conscientemente em nós, assim também em todos os níveis de relações estamos envolvidos em contextos maiores, formados, em termos anímicos, por “espaços” ou “campos” (tomados como metáforas), que juntam as partes para constituir algo “mais” e “maior”: uma união familiar, um grupo de amigos, uma empresa, uma comunidade social, um Estado – que se integra na natureza e no cosmo como um todo. Essa nossa vinculação, em sua grandeza e totalidade, recebe freqüentemente de Bert Hellinger a denominação de “grande alma”. Isso não significa para ele algo místico ou do além, mas a totalidade da existência individual e coletiva, que justamente através das conquistas das ciências naturais nos aparece de modo cada vez mais misterioso, nos sustentando, ligando e talvez mesmo dirigindo.

Entre os consteladores também existem divergências sobre a conveniência e a medida em que se falar de alma. Para alguns isso envolve uma carga excessivamente mística ou religiosa. Outros não partilham essas restrições. Pois diariamente, ao abrirmos um jornal ou revista, lemos em diversos artigos, seja na política, na economia ou na parte esportiva a palavra “alma” num contexto imediatamente inteligível para cada caso. Por exemplo, em manchete: “O templo de Ankor e a alma ferida do Camboja: em busca de nossa identidade”.

Quando se fala de “alma”, seja no trabalho com as constelações, seja de modo geral na psicoterapia ou na vida quotidiana, isso não acontece com ânimo anti-científico. Um consultor familiar não pode esperar que a ciência natural lhe forneça dados e métodos exatos, cientificamente comprovados e universalmente reconhecidos, para a solução de conflitos conjugais. Ele trabalha de uma forma mais ampla, orientado por vivências e pelas “regras da alma”. Uma das realizações de Bert Hellinger é ter condensado e desenvolvido um modelo preexistente de constelações familiares, reduzindo ao essencial, de uma forma experimentável, os processos anímicos e os complexos contextos de relações, abrindo o acesso a mudanças profundas na alma. Quem se disponha a isso, pode comprová-lo pela própria prática do próprio Bert Hellinger, amplamente documentada, e de milhares de consultores e terapeutas.

O sistema

Por ocasião do aconselhamento matrimonial, no mais tardar, percebe-se que o modelo puramente causal de explicação não é mais utilizável quando ouvimos um dos parceiros e lhe damos razão, e ouvimos o outro parceiro e igualmente lhe damos razão. As dinâmicas do relacionamento e os processos da alma são contextos altamente complexos, que não podem ser suficientemente apreendidos recorrendo a explicações e conexões causais lineares. Por esta razão, já vem sendo colocada há mais tempo no domínio psicossocial a seguinte questão: “Como é possível intervir adequadamente nos sistemas de relação sem se deixar apanhar nas armadilhas do pensamento e do discurso causal, mas respeitando ao mesmo tempo a determinação estrutural dos sistemas vivos? A psicoterapia sistêmica de enfoque construtivista encontrou para isso um caminho muito elegante. Ela utiliza a estrutura causal da linguagem, por exemplo, por meio de perguntas circulares, de tal maneira que uma família já não consegue manter facilmente as descrições causais que sustentam o comportamento sintomático. O sistema de relações é estimulado por meio de perguntas hipotéticas a desenvolver por si mesmo comportamentos novos e mais funcionais para a vida familiar.

Em que medida a constelação familiar é um método sistêmico? Primeiramente, ela percebe o cliente, desde o início, em conexão com as pessoas relevantes de seu campo relacional. As constelações permitem experimentar imediatamente como o comportamento humano apresenta uma multiplicidade dos aspectos cambiantes, conexões e interações. Até o momento, nenhum outro método visando informação e intervenção possui uma perspectiva sistêmica tão ampla como as constelações familiares, abrangendo gerações, embora se deva também mencionar Ivan Boszormenyi Nagy, Helm Stierlin e outros, que direcionaram a terapia sistêmica familiar para uma perspectiva multigeneracional.

O simples significado do “emaranhamento” basta para mostrar que nas constelações não se manifestam apenas os fenômenos individuais causais lineares do relacionamento. O olhar para o enredamento de destinos e para o efeito de eventos traumáticos nos sistemas familiares, freqüentemente através de várias gerações, ampliou e aprofundou, de modo impressionante, o pensamento sistêmico e o correspondente procedimento terapêutico. Nenhum método na psicoterapia conseguiu até hoje, como as constelações familiares, tornar visíveis e experimentáveis os processos de compensação sistêmica que atravessam gerações, colocando à disposição os procedimentos específicos adequados. A complexidade do que acontece em relacionamentos humanos não contradiz a ação de regularidades nos relacionamentos. O bater das asas da borboleta, utilizado como exemplo na Teoria do Caos, introduz, é certo, alguma incerteza no evento climático, mas não anula suas regularidades e as forças que atuam no conjunto. Para dizer de outra forma: pertence à essência da sabedoria que ela é capaz de articular inteligentemente e de modo esclarecedor a regularidade e a singularidade da situação individual.

Em segundo lugar: Uma constelação se compõe de imagens. Os sistemas, na medida em que não podem ser descritos de um modo causal, só podem ser expressos por meio de imagens, linguagem imaginativa e histórias. Através de uma imagem, um grande número de informações e de processos pode ser percebida simultaneamente e como um todo. Desta maneira procedemos constantemente de forma sistêmica em nossa percepção. Dificilmente um método terapêutico utilizará isso de uma forma processual e mais concentrada do que as constelações familiares.

As frases de ligação e solução, às vezes ritualizadas, atuam igualmente associadas a imagens. Uma constatação ou descrição causal obtida a partir do que acontece numa constelação serve para trazer à luz uma “verdade”, mas não é essa verdade. Observações gerais de consteladores, por exemplo, sobre anorexia, câncer ou psicoses, não são modelos causais de explicação – mesmo quando são apresentadas como tais -, mas indicações, adquiridas por experiência, destinadas a instigar no cliente uma atitude de busca que o leve adiante e faça descobrir. Uma – impossível – dissolução do que acontece na constelação em passos individuais de causação linear atuaria justamente como obstáculo para a sua eficácia. As constelações, pelo menos de consteladores experientes, estão se tornando cada vez menos faladas e comentadas, e confiam cada vez mais no que as pessoas podem ver. Portanto, a dinâmica sistêmica não é ocultada, soterrada ou coarctada pelas palavras. A evidência sistêmica se introduz na alma do cliente e pode “vibrar em uníssono” no constelador e nos participantes do grupo, justamente porque não é fragmentada em observações individuais e em argumentos “compreensíveis” que seriam – justamente – passíveis de crítica.

Fenomenologia e verdade

O que significa “verdade” numa constelação? Seria uma grande incompreensão do que acontece nela tomá-la como concordância entre a realidade objetiva e o conhecimento, ou como sua expressão em linguagem. A verdade nas constelações é antes comparável à verdade de uma peça teatral. Ela se faz presente, de forma condensada, na imagem e na linguagem, permitindo que venha à luz a realidade oculta. As constelações não são uma reprodução da realidade de um relacionamento. Elas des-velam uma realidade, no sentido do conceito grego de verdade (a-létheia). Esta é também a essência da arte. E, como muitas formas de terapia ou de aconselhamento, as constelações dão muitas vezes um passo além disso. Elas ajudam a assumir a realidade, tal como ela se apresenta e atua, e a preenchê-la com amor.

Fenomenologia significa, de modo geral, perceber e descrever a realidade tal como ela se manifesta. Num sentido filosófico mais elaborado, a fenomenologia se refere a uma forma de experiência, em que a realidade – através de sua forma de manifestação – se dá a conhecer em sua essência, seu sentido e seu ser mais profundo. A percepção fenomenológica é nosso último recurso quando queremos olhar para fenômenos da alma que se ocultam por trás da superfície de suas aparências. Quem busca ajuda precisa de um conselho ou de uma terapia para encarar o que ele não pode saber, e para entendê-lo em sua razão mais profunda.

Na grande maioria das relações sociais dependemos do conhecimento fenomenológico. Até mesmo uma grande parte de nossas ciências naturais começa por uma visão do fenômeno. Aquilo que se manifesta nas constelações sob a forma de conhecimento fenomenológico só se comprova, em última análise, por seus efeitos e pelo fato de que também outras pessoas vêem, de repente, o que antes estava oculto. Presumir nos participantes de uma constelação uma submissão completa ao dirigente do grupo seria enganar-se redondamente. Os participantes, em sua maioria, olham com muita atenção o que se passa, e o dirigente do grupo com freqüência percebe isto de imediato quando interpreta erradamente o que acontece na constelação ou quando faz afirmações implausíveis, contrariando a percepção dos participantes e do cliente.

Para ver precisamos de um “artista” que vê o que se esconde na profundidade – e aqui “profundidade” não quer dizer algo místico. Ele é comparável a um rastreador que descobre e interpreta vestígios que permanecem ocultos a um espectador inexperiente. Como Bert Hellinger e a maioria dos consteladores não realizam controles posteriores sobre o efeito das constelações, a percepção dos “rastros” muitas vezes carece de comprovação. Mas existem suficientes informações de retorno, imediatas ou posteriores, por parte dos clientes, que atestam a veracidade e a eficácia desse rastreamento.

Naturalmente, a contemplação fenomenológica está sujeita a fantasias, interpretações equivocadas, erros, construções mentais e pressões de grupos. Por esta razão, muitos consteladores se treinam constantemente para voltar a ser receptivos e livres diante da realidade da alma, da forma como ela se manifesta. As constelações requerem uma extrema contenção do terapeuta no que toca a perceber, interpretar e agir. Fenomenologicamente verdadeiro é o que se realiza imediatamente numa constelação e, além dela, na vivência pessoal imediata, e não o objeto da crença num terapeuta ou numa instância superior. “O presente é irrefutável”, no dizer de Kafka.

O método fenomenológico aparece como provocante somente quando se aplicam a uma dinâmica social, padrões científicos inadequados e incompatíveis, ou quando se acredita que a verdade pode ser manejada e produzida em discursos. A fenomenologia só é provocante para o puro construtivista que se limita a apurar se “a chave serve”, sem reconhecer uma certa cognoscibilidade à fechadura e à própria chave. O construtivismo e sua compreensão da realidade se apresenta associado a um impulso ético. Numa entrevista ao jornal Die Zeit, Heinz von Förster, um dos epígonos do construtivismo, afirmou que seu conceito de verdade é o contrário da mentira ou da inverdade. Por razões éticas, disse ele, excluiria do dicionário a palavra “verdade”, em razão de toda mentira e infelicidade que já aconteceram em nome dela.

Perguntado sobre o que lhe restaria nesse caso, respondeu: em lugar da “verdade” (truth), “a confiança” (trust), a confiança que nasce quando utilizamos nossos olhos e nossos ouvidos. Aliás, esta é uma perfeita descrição da atitude fenomenológica.

A ordem

As relações não se configuram de um modo caótico e arbitrário, mesmo quando às vezes são experimentadas dessa forma. Como toda realidade, elas se subordinam a determinadas ordens. Isto é indiscutível. A questão está em saber como se originam essas ordens e se podem ser reconhecidas. Freqüentemente, Bert Hellinger e outros consteladores são acusados de declarar universalmente válidas e tentar impor ordens arcaicas, culturalmente condicionadas e há muito ultrapassadas.

Essa crítica parece compreensível à primeira vista, quando, por exemplo, se fala da “hierarquia pela origem”, do significado da união conjugal, de uma mudança de nome ou de uma reverência aos pais. Estamos acostumados a desconfiar de ordens culturalmente preestabelecidas e a reivindicar nossa autonomia e emancipação. Quando vemos – e não só em constelações – o que acontece nas relações, deparamos com algo desafiador, a saber, que nelas atuam forças ordenadoras, ancoradas em nossa alma como uma marca biológica e uma realidade coletivamente ordenada, presente no fundo de nosso inconsciente. Essas forças estão apenas encobertas devido a nossa evolução em termos individualistas e de razão esclarecida. Uma das conquistas do trabalho das constelações foi ter nos levado a experimentar essas ordens ou regulamentações que atuam independentemente de nosso pensamento consciente, permitindo-nos assim lidar sabiamente com elas. Entretanto, são ordens vivas, que estão a serviço da sobrevivência, do crescimento e do progresso nos relacionamentos. Além disso, são ordens que fazem sentido em termos de evolução. Podemos descobri-las, direta ou indiretamente, nas descrições da realidade humana presentes na literatura de todos os séculos.

À semelhança das leis da física, essas ordens de relacionamentos são sempre atuantes. Por exemplo, quem não respeita a lei da gravidade, cai redondamente no chão, porém aquele que a respeita e percebe em conexão com outras leis, pode construir aviões. Assim também as regulações da alma permitem uma série de possibilidades de manipulação, não porém ao bel-prazer.

A hierarquia pela origem, por exemplo, é uma simples ordem básica: primeiro vem quem chegou primeiro, em seguida vem quem chegou depois. Ela vale no interior de um sistema familiar e indica a cada um sua posição e seu lugar dentro da família. Primeiro vêm os pais, depois os filhos. Entre os filhos, primeiro vem o mais velho, depois o segundo e o terceiro. Em primeiro lugar vêm os pais. Isto significa que sua sobrevivência tem precedência sobre a sobrevivência dos filhos. Isso é compreensível em função da sobrevivência do grupo, pois a sobrevivência dos pais assegura uma nova geração mais rapidamente que a sobrevivência dos filhos. Todo o restante que faz parte das transformações culturais da hierarquia da origem resulta disso e deve ser medido por sua função original. Entretanto, em épocas de superpopulação sua avaliação pode obedecer a critérios diferentes.

A hierarquia pela origem é completada pela “hierarquia pelo progresso”. Por outras palavras: entre dois sistemas diferentes, o novo sistema tem precedência sobre o anterior. Assim, quando os filhos deixam seus pais e se casam e têm filhos, essa nova família tem precedência sobre a família de origem. Isso também faz sentido em termos de evolução e de abertura para o futuro.

É sempre emocionante experimentar como são úteis essas ordens, básicas mas fundamentais, para configurar relacionamentos e resolver conflitos. Todo mundo percebe imediatamente, por exemplo, como é útil quando uma mãe grávida diz à sua filha de três anos: “Você vai ganhar um irmão. No início eu precisarei cuidar muito dele, do mesmo jeito como você mesma precisou muito de mim quando era bebê. Mas você será sempre a minha primeira filha e a mais velha”.

As ordens do amor contribuem para o sucesso dos relacionamentos. Elas são geralmente imediatamente compreensíveis e fundam numa base confiável as relações entre pais e filhos, homem e mulher, e dentro do clã familiar. Aqui as constelações familiares realmente proporcionam ajuda e orientação. O grande interesse delas se prende à capacidade de solucionar que possuem as “ordens do amor”. Muitas oposições contra essas ordens se relacionam menos à emancipação cultural e pessoal do que a outros contextos, muitas vezes inconscientes.

Uma mulher foi a um grupo devido a problemas no casamento. Tinha mantido “naturalmente” o seu sobrenome de solteira e também o filho único conservou o sobrenome da mãe.[2] Era a mais nova de três irmãs. Quando o terapeuta disse: “Talvez vocês conservaram o seu nome de solteira para que seu pai tivesse um descendente de sua estirpe”, – vieram-lhe lágrimas e ela confirmou com a cabeça.

Será mostrado em que medida essas ordens mudam de acordo com a evolução humana. Mas deve ficar claro que a realidade não se orienta de acordo com o nosso arbítrio e a nossa opinião. O movimento ecológico demonstrou que, quando nossa ação desrespeita as regulamentações e seus efeitos de longo prazo, ela acarreta resultados danosos e até funestos. As “ordens do amor” representam talvez uma transposição do pensamento e da ação ecológica para o domínio das relações. Elas também nos permitem levar em conta em nossos relacionamentos, os efeitos de longo prazo que nosso comportamento produz nas gerações subsequentes. Como podemos estruturar nossas relações, de modo que nossos filhos e os filhos de nossos filhos não precisem pagar o seu preço? Mesmo em nossa época, com toda a aparente amizade pelos filhos, temos a tendência de sacrificá-los não só por necessidade, mas também por vergonha, medo, interesse próprio e falsa autonomia e emancipação.

O destino

A compreensão de nosso destino e o assentimento a ele estão no cerne do trabalho das constelações. Chamamos de destino as forças que, vindas do passado, nos ligam inelutavelmente ao efeito bom ou funesto de certos eventos. O efeito dos acontecimentos nos é imposto, quer o queiramos ou não, e não temos a possibilidade de interferir nele. A força do destino se revela, em relação a acontecimentos traumáticos numa família, de uma forma às vezes inquietante. Nas constelações experimentamos constantemente, e de modo impressionante, que somos muito pouco livres e reeditamos em nossa própria vida, sem saber nem querer, destinos passados e acontecimentos dolorosos, numa espécie de compulsão repetitiva. O efeito maior das constelações consiste em nos fazer perceber como, sem necessidades próprias, revivemos necessidades passadas e não aquietadas de outras pessoas, como se o que passou tivesse de ficar em paz e se tornar definitivamente passado. Este é o pão habitual do trabalho com constelações.

A concordância com a ligação ao destino significa por acaso fatalismo? De maneira nenhuma. Pelo contrário. É verdade que a configuração de nossa vida pelos destinos anteriores não pode ser anulada, mas para o futuro nos tornamos mais livres através do que se mostra nas constelações. Então, o destino alheio poderá ser de algum modo exteriorizado, tornando-se uma interface à qual já não estamos cegamente entregues. Pois a alma não liga indissoluvelmente a destinos, ela nos libera deles através de um insight, de um movimento próprio inconsciente ou, às vezes, de um modo totalmente casual (com ou sem constelação).

Numa época em que às vezes julgamos que nossa vida está completamente em nossas mãos – uma ilusão de muitos individualistas -, o reconhecimento do destino e o assentimento à ligação com o destino próprio e alheio constitui um desafio. Tanto nos acostumamos à ideia de uma livre razão e de uma autonomia individual que nos recusamos a reconhecer o que em épocas passadas foi descrito como daimonía e eudaimonía – a triste sina e a felicidade presenteada. O trabalho das constelações é seguramente uma afronta a uma psicoterapia que valoriza acima de tudo a autonomia e a emancipação individual e considera a humildade como uma submissão. Porém basta ler jornais e romances para perceber como atua o destino e como o nosso poder e a nossa impotência partilham a realidade.

Muitas pessoas sentem instintivamente como um processo benéfico a reverência diante do destino ou diante de pessoas a que somos ligados pelo destino. Uma reverência autêntica é quase sempre experimentada por nós como solução e liberação. Quem precisa se curvar não é a criança pequena, mas o adulto. E a reverência abarca vários processos: o ato de curvar-se, o deixar que algo morra, e o ato de erguer-se. Bem longe de ser um processo humilhante, a reverência exige coragem. Ela proporciona força, alívio da respiração e abertura de espaço.

O destino, como força que inelutavelmente dispõe, não faz caso de nossa vontade: ele a toma de roldão, sem esperar o nosso consentimento. O destino não é uma pessoa, embora freqüentemente seja representado por uma pessoa nas constelações. É um acontecimento direcionado a partir do passado, um movimento que nos liga, através da alma, à realidade maior. Quantas vezes os clientes falam de sua luta para não se tornarem iguais a seu pai ou a sua mãe, e quantas vezes acrescentam que essa luta resultou em fracasso! Quantos clientes quiseram fazer melhor que seus pais, e quantos confessam que não o conseguiram! Um dos paradoxos da vida humana é que a luta contra o destino nos liga ainda mais a ele, e o assentimento ao destino nos torna mais livres. É como um redemoinho num rio. Quem luta contra a sua sucção é puxado ainda mais para o interior, e quem sem pânico se entrega à sua força é muitas vezes impelido para fora.

Reconhecimento do destino não significa entregar-se à doença sem vontade e com resignação. Significa acompanhá-la com as forças do corpo e da alma. Então, como num redemoinho, elas são de novo liberadas da atração da doença ou da morte. Aqui, muitas vezes, faz sentido perguntar: O que há na doença que quer curar? Naturalmente, o doente precisa de apoio externo. E muitas constelações ajudam pessoas enfermas a se confiarem aos serviços médicos. Mas as constelações também as fazem confrontar-se com a morte. Uma senhora, gravemente doente de câncer, procurava saber através de uma constelação as causas de sua doença. O representante da morte, colocado diante dela, olhou-a com carinho, colocou-se ao lado dela e abraçou-a pelo ombro. Ela se defendeu com lágrimas, mas o representante da morte não cedeu. Dois anos depois, essa senhora escreveu ao terapeuta: “Eu me defendi muito contra a morte, e finalmente a aceitei. Agora ela está a meu lado já há algum tempo, e estou viva”.

Mas também existe o movimento oposto. Outra mulher com câncer em estado grave, que se sentia fortemente atraída a seguir na morte seu pai, enredado em grave culpa, pediu ao terapeuta que se esforçava por desprendê-la da morte: “Por favor, deixe-me ir para meu pai!” Ela se deitou junto do representante do pai, apertou-o nos braços, sorriu para ele com amor entre lágrimas, até que se acalmou completamente. Na continuação do grupo ela atuou com alegria e energia e colocou muitas questões práticas sobre seu comportamento em relação ao marido e aos filhos. Notou-se que ela se preparava para sua morte. Que vontade terapêutica teria aqui a força e o direito de se opor à sua morte?

Os mortos

Num filme amador, perguntaram a um curandeiro do Nepal, quem procurava um médico em caso de necessidade, e quem vinha até ele. O curandeiro respondeu que os que tinham doenças comuns procuravam um médico, e aqueles sobre quem pesava a maldição de algum morto vinham até ele. O encontro com os mortos, a quem somos existencialmente ligados, toma um grande espaço nas constelações.

Sem constrangimento, os consteladores tomam pessoas vivas para representar mortos, para que possa ser esclarecido, com seus efeitos, um envolvimento cego ou um seguimento amoroso para a morte. Acontecem então impressionantes encontros entre vivos e mortos, e são iniciados curtos diálogos que ajudam a união de corações, a paz recíproca e a liberação mútua. Será um fantasma?

Nada sabemos sobre a existência dos mortos em torno de nós ou num outro mundo. Porém, todos sabemos que um laço entre vivos e mortos permanece na alma para além da morte. Falamos com mortos, lembramo-nos deles nos cemitérios ou em discursos, continuamos a amá-los e a temê-los como se não tivessem morrido. Nossas questões existenciais, em sua maioria, abordam, além do amor, a morte. E quem olha em torno com certa atenção pode perceber diariamente como a morte e os mortos sobressaem em nossa vida.

O trabalho das constelações retoma, de uma forma não mágica e realizável pelo homem moderno, antigos ritos xamânicos em favor da paz entre vivos e mortos. Como é tocante quando numa constelação, uma mulher adulta se deita nos braços da mãe que perdeu quando criança em virtude de um acidente! As emoções da criança, talvez bloqueadas pela carência e pela dor, passam a fluir, e o amor e a despedida podem ser agora realmente vividos. Como se sentem aliviados os representantes de mortos que são reconhecidos pela primeira vez como pertencentes à família, ou dos que, porque honrados em seu sofrimento, se livram de uma maldição! Como se sentem liberados os representantes de criminosos ou de vítimas quando sua condição de culpados ou de vítimas já pode ficar com eles, e os vivos renunciam a se intrometer nisso! Como se sentem redimidos os representantes de mortos quando se sentem acolhidos entre outros mortos e já podem realmente ser acolhidos na “grande morte”!

Não é de hoje que tendemos a reprimir a morte e as ligações carregadas de dívidas que por amor, medo ou dor mantemos com os mortos e com as histórias de suas vidas. Isso já é, de longa data, conhecido pela psicoterapia. No decurso de nossa evolução cultural, perdemos o acesso a muitas formas rituais e sociais de superação da morte e de respeito pelos antepassados. Mesmo sem as constelações familiares, e muito tempo antes delas, existe um profundo anseio de lidar com o morrer, a morte e os mortos de uma forma liberadora e pacificadora. E para isso, as pessoas sempre precisaram de um apoio, por exemplo, através de um sacerdote ou com a ajuda da psicanálise ou da assistência ao morrer. Nesse ponto, o trabalho das constelações assume uma necessidade profunda e supre talvez uma lacuna de rituais e de luto coletivo.

Além disso, as constelações abrem a perspectiva para o enquadramento psíquico maior do encontro com a morte e com os mortos na alma. Elas fazem ver o fato individual enquanto enquadrado no contexto e na história da família, ou de um grupo de camaradas que viveram juntos coisas terríveis na guerra, ou no destino comum de perpetradores e vítimas, e sempre transcendendo a morte. Ou elas abrem a alma para a “grande morte”. Isto só parece estranho e até mesmo absurdo quando é encarado de longe e não no contexto da contemplação e da experiência imediata. Para os clientes envolvidos e os participantes de grupos, o encontro entre vivos e mortos geralmente se realiza como que naturalmente e é muito emocionante e curativo. E mesmo que não saibamos ao certo o que acontece nas constelações nos domínios fronteiriços dos vivos e dos mortos, podemos perceber o seu efeito e nos apoiar nisso. Neste particular, as constelações atuam como uma “cura de almas”.

A reconciliação

A palavra grega therapêuein significa, em sua acepção original, “servir aos deuses”. Embora em nossa época a terapia seja vista de uma forma profana, nela permanece algo do sentido primitivo da palavra, na medida em que, decaídos de uma ordem ou abandonado uma opinião e um bel-prazer que nos prejudicam, retornamos a uma ordem saudável. Em nosso linguajar coloquial, exprimimos isso com as palavras: “Preciso pôr alguma coisa em ordem”. Os conflitos da alma surgem quando forças contrárias nos dividem inconciliavelmente e conservam-se em oposição irredutível em nós ou entre nós. A psicoterapia é sempre um trabalho de mediação e reconciliação, embora várias tendências terapêuticas tenham enveredado pelo caminho oposto, enfatizando a auto-afirmação, uma perspectiva unilateral da autonomia pessoal, a separação e a luta, por exemplo, contra os pais, os destinos funestos ou as pessoas consideradas más.

Bert Hellinger, ousando chegar a limites extremos, trilhou imperturbavelmente um caminho que pode abrir dimensões novas (ou retomar antigas, de uma nova maneira) para a solução de conflitos e o trabalho de reconciliação.

Os passos para a reconciliação, embora basicamente simples, geralmente nos parecem difíceis. O procedimento inicial faz com que os perpetradores reconheçam o mal que fizeram às vítimas. Precisam assumir as conseqüências de suas ações e encarar as vítimas e seus sofrimentos. Um segundo procedimento induz as vítimas a encarar os perpetradores e a aceitar sem reservas sua ligação de destino com eles. A vítima precisa abandonar a atitude de se julgar melhor e de se colocar, mesmo perdoando, acima do perpetrador. Num terceiro procedimento, tanto as vítimas quanto os perpetradores e os descendentes de ambos honram o acontecimento funesto. Reconhecendo suas oposições, todos eles, em sua condição de vítimas ou de perpetradores e com seus sentimentos de vingança e de expiação, se entregam a uma força maior que é “indiferente” para com bons e maus, assim como o sol brilha sobre ambos, e a morte os trata com igualdade.

A dificuldade de aceitar criminosos em condição de igualdade e em sua dignidade humana é uma experiência comum para os consteladores. Um exemplo: Uma mulher contou que sua mãe, quando era jovem, foi violentada e quase morta. Confrontada na constelação com o representante do perpetrador, essa mulher gritou para ele, cheia de ódio: “Eu mato você!”. Quando o terapeuta observou que sua frase fôra a mesma do agressor diante de sua mãe, ela ficou profundamente impressionada. Ela viera ao grupo porque os homens sempre a abandonavam, alegando terem medo dela. Vê-se como é difícil conceder ao criminoso um lugar na própria alma e no sistema familiar, e reconhecê-lo como equiparado à sua mãe. Às vezes, as próprias vítimas são mais capazes de fazer isso do que seus amorosos descendentes, que não dispõem dos mecanismos de elaboração da pessoa envolvida, e por isso ficam entregues à indignação ou ao desejo de vingança e de cega compensação.

Outras vezes é mais fácil para os descendentes, devido ao maior intervalo de tempo, atuar na reconciliação, ajudando as almas do agressor e da vítima a se encontrarem face a face e a se reconciliarem. Às vezes, só resta aos atingidos o esquecimento e, reconciliados ou não, o assentimento e a reverência diante do destino que os associou como vítima e agressor. E aos pósteros, só resta às vezes a reverência diante dos antepassados, reconciliados ou não. Talvez eles possam se tornar “permeáveis” a algo maior no que toca ao efeito do destino de vítimas e agressores, para que esse efeito possa ser abolido nessa realidade maior.

É o próprio processo da constelação que determina como iniciar a reconciliação ou o que é preciso observar em cada passo. O terapeuta limita-se a olhar e a escutar a alma do cliente e de sua família, abrindo espaço, com suas poucas intervenções, às forças que resolvem os conflitos e atuam de forma reconciliadora. Seja qual for o caso, abuso ou assassinato de filhos, trapaça financeira, paternidade clandestina, traição, atrocidades de guerra, extermínio de judeus ou terrorismo de qualquer espécie, as constelações mostram uma força incrivelmente reconciliadora e liberadora, em que pesem as imperfeições e as tentativas frustradas, superficiais ou mesmo traumáticas dos consteladores.

Acusar de anti-semitismo ou de tendências fascistas esses procedimentos das constelações é uma atitude absurda e degradante. Que, depois de homenagear as vítimas, também se encare a dignidade dos perpetradores e as fronteiras imprecisas entre criminosos e vítimas, é uma atitude que choca muitas pessoas, e os próprios consteladores enfrentam dificuldades na presença de graves injustiças. Mas quem lê as publicações mais recentes percebe também a manifestação de um novo empenho, não somente para que sejam honradas as vítimas e seu destino, mas também para que os criminosos sejam considerados como seres humanos e seja respeitada sua dignidade. Foi um rabino judeu que afirmou: “Não haverá paz até que o último judeu faça a oração dos mortos por Hitler”. Embora Bert Hellinger e os consteladores não estejam sozinhos nesse trabalho de reconciliação que honra tanto as vítimas quanto os criminosos, o significado do “amor aos inimigos” dificilmente é experimentado no domínio da psicoterapia e do aconselhamento de forma tão sensível como nas constelações.

Entretanto, não existem realmente diferenças objetivas entre bons e maus? E a observação de que tanto as vítimas quanto os criminosos estão a serviço de um destino maior, não abre ela as portas para a arbitrariedade e a injustiça no comportamento humano? Não podemos dizer que temos sempre uma resposta para isso, mesmo abstraindo de destinos concretos. Muitas vezes, porém, um primeiro passo importante para a reconciliação e a paz, apesar das oposições e mesmo da luta pela própria causa, que freqüentemente é necessária, é reconhecermos o adversário como igual a nós e não nos considerarmos melhores do que ele.

Diariamente experimentamos que a realidade costuma ser maior do que nossa vontade. Mesmo quando criamos uma realidade, nem sempre podemos controlar as conseqüências de nossas ações. Um dos efeitos profundos do trabalho das constelações é que nos ajuda a confiar no desenvolvimento do sentimento humano, para além da culpa e das incriminações, renunciando a flagelar nossos semelhantes como desumanos. Só entramos em sintonia com a realidade quando também reconhecemos o funesto e o terrível como fazendo parte dela, e lhes damos um lugar. Muitos desenvolvimentos positivos recebem sua força e seu direcionamento desse reconhecimento e respeito pelo terrível.

A ajuda

Como prestadores de ajuda, somos obrigados a colaborar no desenvolvimento de algo bom que faça progredir aqueles que se encontram em necessidade. A ajuda[3] é uma faculdade que se baseia em treinamento e experiência. Estamos acostumados a ver a faculdade terapêutica encaixada em instituições de psicoterapia e aconselhamento e em sua respectiva administração, que velam pelo desenvolvimento dessa faculdade e para impedir abusos em seu exercício. O trabalho das constelações familiares, como originariamente muitos outros métodos de ajuda, se desenvolveu fora da psicoterapia estabelecida e não reivindica lugar como um método terapêutico reconhecido. O que muitos teóricos e praticantes sentem como afronta no domínio da terapia é a observação de Bert Hellinger, partilhada por muitos consteladores – não por todos – que o trabalho com constelações vai muito além da psicoterapia.

Os críticos objetam que com isso se abrem amplamente as portas para tolices esotéricas. Afirmam que o trabalho com as constelações visa realmente efeitos terapêuticos e que por isso ele deve sujeitar-se às leis que regulam a terapia e às normas de uma terapia cientificamente controlada, ou deve deixar de existir.

Neste particular, importantes discussões também vêm acontecendo entre os consteladores, e o campo está aberto para o desenvolvimento. As “Ordens da Ajuda” de Bert Hellinger [4], que resumem sua longa experiência e suas convicções sobre o tema da ajuda, contém matéria explosiva que exerce provocação, tanto sobre a esfera externa quanto sobre o “cenário” dos consteladores:

Somente é capaz de ajudar quem assumiu plenamente os próprios pais e a vida. Só é capaz de ajudar quem renuncia a dar ao cliente mais do que ele precisa. Só pode ajudar quem tem a capacidade de dar o que o cliente necessita. Muitos ajudantes[5] correm o risco de que seu impulso de ajudar resulte de sua própria carência, de uma simpatia que se restringe aos fracos e às vítimas, e da pretensão de estarem á altura de todos os destinos de seus clientes. Toda ajuda deve ajustar-se às circunstâncias na vida do cliente e só pode intervir em caráter de apoio, e quando o permitam as circunstâncias. Somente respeita a dignidade do cliente a ajuda que não se coloca acima dessas circunstâncias, do destino do cliente e de sua vocação pessoal, de suas aptidões e de sua capacidade de decisão.

Na psicoterapia tradicional infiltraram-se padrões de pensamento segundo os quais os terapeutas poderiam ser mecânicos, juizes, cônjuges ou pais.

Principalmente esta última tendência foi grandemente reforçada através do modelo teórico e do prático de transferência e contratransferência, com a “elaboração” de conflitos e a ideia de acompanhamento posterior com o correspondente prolongamento da terapia.

A constelação familiar não trabalha com transferência e contratransferência, embora não conteste a existência desses processos. Mas o constelador se desprende deles, da melhor forma possível. O terapeuta ou o aconselhador conduz o cliente, quando isso é necessário, diretamente para os pais dele. Ele só os representa transitoriamente e por pouco tempo, apoiando, por exemplo, a recuperação do movimento amoroso, sem colocar-se, entretanto, no lugar dos pais. Ele renuncia a acompanhar o cliente durante um período de sua vida e a oferecer-lhe um espaço de substituição ou de proteção para seu crescimento na segurança do espaço terapêutico. Ele só lhe dá um estímulo para o crescimento, geralmente sem acompanhar a realização de seu crescimento na vida concreta.

A constelação familiar, entendida desta maneira, não é uma terapia. Ela se assemelha realmente a uma “predição”, um “oráculo” ou um “vaticínio”, na medida em que traz à luz laços de destino e seus efeitos. Ela ajuda a “ver”, sem buscar influenciar o que o cliente fará com ela, e sem que o ajudante desempenhe um papel nisso. Para além de uma “predição”, a constelação também ajuda as pessoas a sentirem o próprio amor, freqüentemente oculto no destino cego. Ela possibilita abrir os olhos para o amor, estabelecendo relações cara a cara. E também aqui, o terapeuta se coloca, antes a serviço do diálogo do cliente com seu sistema de relações, do que a si mesmo como interlocutor do diálogo.

A constelação familiar mostra os caminhos para uma compensação positiva em vez de uma compensação funesta. Ela fornece indicações sobre o que ordena as relações, tanto para o mal quanto para o bem. Ela faz confrontar, às vezes duramente, com a realidade, mas não diz o que a pessoa deve fazer ou deixar, ou como será seu futuro. Nesse particular, ela deixa a pessoa que busca auxilio sozinha, ou no círculo de sua família e de outras relações existenciais. Isso muitas vezes parece ser chocante para as pessoas no exterior, se bem que muitos clientes experimentem justamente essa atitude como confiável, aliviadora e fortalecedora, pois com ela são tomados a sério e se sentem livres.

Outra coisa que incomoda observadores externos, é que os consteladores às vezes olham menos para o que o próprio cliente precisa do que para as necessidades de outros membros do sistema, principalmente dos excluídos ou incriminados. A principal atenção se dirige para a incorporação dos que estão separados num sistema de relações, e não apenas para o cliente e sua autonomia. O autêntico ajudante, no sentido de Bert Hellinger, resiste à diferenciação entre o bem e o mal e, com isso, à consciência pessoal do cliente. Ele antecipa a necessária ação do cliente, na medida em que dá em sua alma um lugar aos excluídos ou incriminados.

Ao abrirem um espaço para além dos efeitos da consciência do grupo, os consteladores têm em vista o que sugere a “grande alma” – um contexto que aponta para além dos grupos individuais – numa determinada situação de vida, como conveniente para o crescimento ulterior. Tanto a consciência pessoal quanto a coletiva são acolhidas numa espécie de consciência “universal”, direcionada para o todo maior. Aqui a configuração de sistemas de relações também se distancia de uma psicoterapia e um aconselhamento puramente orientados para soluções. Abre-se um nível mais espiritual, na medida em que se encara a ligação com algo “maior”, que está fora de nossa disponibilidade e possibilidade. Orienta-se no sentido do crescimento e do desenvolvimento na direção de um “espaço aberto”. Nisso reside o que na constelação familiar é “mais que uma psicoterapia” .

A ajuda que ocorre no interior desse “mais”, dificilmente se enquadra nas instituições de ajuda e em seus regulamentos. Nesse ponto se insere, talvez, a crítica dos teólogos e a luta contra o método das constelações, como se ele fizesse parte de uma cena esotérica. Como esse “mais” abrange aconselhamento e psicoterapia, e o trabalho das constelações se processa tanto dentro quanto fora das correspondentes instituições, os conflitos são facilmente compreensíveis e quase programados por antecipação.

A responsabilidade em constelar

Em razão da euforia fundada na profundidade das vivências e na densidade humana de muitas constelações, muitos consteladores correm o risco de se descuidar, justificando as críticas. O que nos ajuda para trabalhar responsavelmente com constelações familiares?

O cuidado significa aqui agir com sobriedade e clareza, correção e plausibilidade. Além da atitude e da reserva fenomenológica, constantemente aconselhada, precisamos nos direcionar para a vida comum. Não se trata de direcionar os clientes ou suas famílias a um padrão único, de acordo com nossas concepções, mas de colaborar para que o que é “maior”, seja o que for, possa atuar como incentivo e solução no dia-a-dia do cliente. O milagre não está na unidade do múltiplo, mas na multiplicidade do uno.

Toda a sabedoria é inútil quando não se refere a situações individuais ou coletivas. Por mais que encaremos a alma humana como uma espécie de “campo”, ela não deixa de abranger pessoas individuais. Ela só existe e se mostra através de indivíduos. Por mais que os movimentos sistêmicos permaneçam no primeiro plano das constelações, eles não existem sem os indivíduos num sistema, isto é, sem a mãe prematuramente falecida, sem o avô suicida, sem o cliente com sua necessidade ou doença. “You cannot kiss a system”. Para corresponder realmente à necessidade do cliente, a atenção do terapeuta deve realmente passar através de seu sistema de relações, porém sem perder de vista o cliente e suas necessidades concretas, e absolutamente sem feri-lo.

No tocante aos efeitos externos do trabalho das constelações, recomenda-se considerar os seguintes aspectos:

Quem oferece constelações como psicoterapia também precisa possuir habilitação legal para a prática da psicoterapia. Quem não a possui não deve despertar a impressão de praticar terapia, nem atender a expectativas terapêuticas no sentido tradicional e legal. Precisa limitar-se ao aconselhamento, que até agora – felizmente – não foi regulamentado. Naturalmente, no trabalho concreto fica difícil definir os limites entre psicoterapia e aconselhamento, entre curar e aconselhar.

Seguramente não se justifica enaltecer a constelação familiar como o único método capaz de resolver tudo e trazer felicidade. Por mais liberador e saudável que seja seu efeito para a alma, ela não produz redenção nem salvação. Por mais espiritual ou religiosa que possa ser, ela não é uma religião. O êxito de um método tende a colocá-lo em evidência, em lugar da intenção ou da necessidade do cliente, ao qual o método serve. Muitos clientes preferem fazer uma constelação a descrever seu problema, seja ele uma briga entre irmãos, um conflito conjugal, a busca do lugar certo em sua vida ou o risco de suicídio de um filho. Mas a participação numa constelação não significa, por si só, uma receita de sucesso.

O “mais” do trabalho das constelações é em muitas situações também um “menos”. Por exemplo, a constelação familiar não substitui o tratamento psiquiátrico, embora freqüentemente seja útil para famílias onde se manifesta um comportamento psicótico. Não substitui o tratamento médico em casos de doenças. Não substitui o atendimento social, com as decisões de sua competência. Não substitui todas as instituições que se dedicam a intervenções em casos de crises. Nem substitui os métodos de ajuda à alma, quando alguém precisa apreender o que necessita para o domínio de sua vida e que, pelas circunstâncias de sua história, ainda não aprendeu. As constelações não são úteis para mudanças de personalidade, embora possam interferir profundamente no processo de crescimento da pessoa. Elas não substituem o treinamento ou a disciplina espiritual, quando alguém quer se desenvolver nesse sentido. E não substituem os domínios da experiência quotidiana dos clientes a que servem, mesmo que possam proporcionar-lhes luzes extraordinárias.

O cuidado no trabalho com constelações também envolve a aprendizagem. Nesse particular, muito se discute nos círculos de consteladores sobre o que é necessário aprender para dirigi-las. Até o momento pertence a cada um testar-se para sentir se está pronto e capaz de assumir a responsabilidade por esse trabalho. Note-se que a atitude fenomenológica que abre mão do saber só tem significado para aquele que sabe algo. Ela não significa “sem capacidade”, “sem experiência” ou “sem competência”. A atitude de agir “sem medo” não significa ausência de respeito pelas forças com que temos de lidar nas constelações. A atitude de atuar “sem intenção”, não significa que nos deixemos arrastar nas constelações pela arbitrariedade e pelo acaso. E o atuar “sem amor” se refere ao domínio da transferência e da contra-transferência, e não significa falta de amorosidade.

Também de nós, consteladores, continua exigindo um constante esforço assumir cada pessoa, cada família, cada sistema, cada realidade como ela é, de modo que também o cliente possa reconhecer mais facilmente o que necessita para a solução de seus problemas e para o seu próprio crescimento.

Agradecimento

Muito agradeço aos amigos e colegas que me apoiaram neste artigo com valiosos estímulos e correções: Bernhard Haslinger, Eva Madelung, Albrecht Mahr, Wilfried de Philipp, Katharina Stresius,Gunthard Weber e Berthold Ulsamer.

Tradução: Newton Queiroz

Rio de Janeiro, fevereiro de 2004

[1] A tradução, autorizada pelo Autor, reproduz quase integralmente o artigo “Wille und Schicksal” (Vontade e Destino), publicado originalmente em resposta a críticas levantadas recentemente na Alemanha contra o trabalho de Bert Hellinger. Foi excluída da presente tradução a página inicial, pelas referências a um contexto para nós desconhecido. (N.T.)

[2] Na Alemanha apenas se usa o sobrenome paterno, que as mulheres normalmente substituem no casamento pelo sobrenome do marido. (N.T.)

[3] Entendida num sentido profissional. (N.T.)

[4] Publicado nesse site onde existe uma tradução de nossa autoria. (N.T.)

[5] No original, Helfer. Entendem-se aqui sobretudo os profissionais da ajuda. (N.T.)